Em 1998, quando a última grande gravadora brasileira encerrou a produção de discos de vinil, sobraram pouquíssimas fábricas, todas de fundo de quintal. Com o crescimento desenfreado do CD (que hoje, quem diria, é o condenado à morte da vez), elas foram perdendo fôlego e acabaram na bancarrota. A última a fechar as portas foi a Polysom, em Belford Roxo, que deixou de operar em outubro de 2007, após carregar durante anos o título de “única fábrica de vinis da América Latina”.
Mas enquanto o mato crescia pelo terreno de 1.900 metros quadrados na Baixada, o vinil voltava a virar objeto de desejo entre apreciadores de música e colecionadores — basta dizer que, só nos Estados Unidos, as vendas em 2009 chegaram a 2,5 milhões de unidades. E João Augusto, dono da gravadora independente Deckdisc, se interessou em tocar o negócio. Depois de um ano de ajustes, a Polysom foi parar justamente nas mãos do sujeito que decretara o fim da produção em vinil dos títulos da EMI, em 1995, quando era vice-presidente da multinacional.
Do forno
O empresário acaba de botar na rua os quatro primeiros discos da nova fornada, e não esconde o orgulho ao mostrar as crias da empreitada. “Olha a estrutura do disco, tem peso, qualidade. Não está bonito?”, pergunta, sabendo que qualquer resposta diferente de sim seria como tirar um doce da boca de uma criança.
Para que tudo isso funcionasse de forma competitiva, João investiu em mão de obra especializada — e foi buscar o que havia de melhor num mercado há muito desaquecido. Primeiro, contratou dois dos mais capacitados profissionais da área.
Paixão e empolgação pelo trabalho com os LPs
A empolgação de Nilton é a mesma de quando ele entrou pela primeira vez numa fábrica de discos, em 1969, depois de se candidatar, aleatoriamente, a um emprego no setor. Foi a paixão desenvolvida ao longo da carreira que fez com que ele, já com o mercado de vinis em decadência, arrematasse com o colega José Rosa o que restava de equipamento para montar a Polysom. “Fui teimoso, estava na contramão do mundo, mas nunca deixei de acreditar no vinil”, recorda Nilton, orgulhoso da volta por cima. “Quando voltamos a produzir, foi uma alegria só”.
Enquanto esteve sob o comando de Nilton e José, a Polysom sobreviveu de música eletrônica, gospel, evangélica e rock alternativo. Quando perguntado sobre o disco que mais se orgulha de ter produzido, Nilton é sincero: “Quando estou trabalhando não me prendo muito nisso, não. Meu negócio são as máquinas, é desenvolver o processo”, diz ele, apesar de ser apaixonado por orquestras e ouvir música sempre que chega em casa do trabalho. “Não tem coisa melhor do que sentar, botar um disco na vitrola e se deleitar. Eu até tenho CDs e DVDs, mas o som é outro”.
No mercado desde 1970, José sempre trabalhou com manutenção de caldeiras — peça que fornece vapor às prensas de onde saem os discos. A maior parte do tempo ele passou dentro de grandes fábricas como a Fonobras e a CBS.
Marcella Sobral
Da agência O globo